O coveiro de São Pedro do Rio Grande do Sul

Ao se falar do atual momento político no Rio Grande do Sul é bom lembrar de que lugar do Brasil se trata. A Província de São Pedro do Rio Grande do Sul foi uma das províncias do Império do Brasil, tendo sido criada em 28 de fevereiro de 1821 a partir da Capitania de São Pedro do Rio Grande do Sul (1807-1821). Entre 1835 e 1845 seu território foi objeto de cisão pela República Rio-Grandense, a revolução Farroupilha, um dos momentos históricos emblemáticos para a tradição do estado. Voltou a integralizar-se com o tratado de paz com o II Império. Com a proclamação da República em 15 de novembro de 1889, tornou-se o atual estado do Rio Grande do Sul.

O traço marcante do Rio Grande do Sul é o de ter sido cenário de lutas militares, territoriais e políticas. Da defesa das fronteiras de nosso país. Palco de heroísmo e resistência, lutas por diferentes ideias e posições políticas. Acolhimento de colonos europeus, integração de diferentes culturas e etnias, apesar do odioso episódio da traição aos Lanceiros Negros. Estes fatos plasmaram uma formação histórico-social peculiar que caracteriza o jeito de ser dos gaúchos. Mas, observando os acontecimentos recentes parece que um Rio Grande oculto emergiu nos últimos tempos. Trata-se da atual luta política no Estado que é travada pelo Governador Ivo Sartori do PMDB contra o próprio Estado que lhe cabe governar.

Uma situação de traição e ódio ao patrimônio do povo gaúcho construído ao longo de centenas de anos. Os cidadãos e cidadãs assistem assombrados/as um governador alucinado, qual uma Thatcher de bombachas, vociferando ultrapassados preceitos neoliberais e macaqueando modelos alienígenas de gestão. É deprimente assistir ao que acontece ao velho São Pedro do Rio Grande do Sul. Em vez dos farrapos, dos maragatos e chimangos, dos caudilhos, dos liberais, dos republicanos, de todos aqueles pensamentos múltiplos, antagônicos ou não, que permearam a história do Rio Grande o que se vê hoje? As investidas dos oligopólios midiáticos para anestesiar e dominar a consciência popular. Tornar a população uma mera receptora acrítica da propaganda neoliberal; refém de um antiestatismo doentio; alinhá-la com os golpistas do impeachment, sem crime, desferido contra a presidenta Dilma Rousseff. Aliás, é importante ressaltar que a maioria dos parlamentares do Rio Grande do Sul e o seu governador tiveram importante papel no golpe. Portanto, não é de estranhar que uma vez “resolvida” a traição na esfera federal nada mais adequado do que completar a obra destruindo as esferas estaduais. Parece ser esta a única explicação para a extinção das Fundações.

A Assembleia Legislativa do Rio Grande do Sul aprovou, por 30 votos a 23, o Projeto de Lei 246/16, que prevê a extinção das Fundações públicas.

As bancadas do PT, PCdoB, PSOL, PPL e REDE votaram contra o pacote de medidas do Poder Executivo pretensamente contra a crise financeira do estado. Os deputados do PDT votaram por ampla maioria contra (apenas 2 a favor) e PTB 2 contra e três a favor. Já as bancadas do PMDB, PSDB, PP, PSB, PPS, PR, PV e PRB votaram por unanimidade pela extinção das fundações.

Segundo os argumentos apresentados pela oposição o governo teria outras alternativas para combater a crise. Ele poderia trabalhar mais no combate à sonegação de impostos, evitar a renúncia fiscal, fazer a cobrança da dívida ativa, extinguir o Tribunal de Justiça Militar, que é oneroso e inútil para o estado, mas a opção ideológica é a diminuição do Estado.

As Fundações extintas têm um grande papel na produção científica e cultural do Estado. O governo tenta dar a aparência de uma simples e corriqueira reforma administrativa, um “choque de gestão”, tão em moda no receituário neoliberal. Uma medida para cortar e economizar os gastos públicos. No entanto “é um grande desastre para o RS do ponto de vista da sua capacidade de formular e promover políticas públicas mais qualificadas”, diz Tarson Núñez, da Fundação de Economia e Estatística – FEE. Segundo ele, a extinção dessas Fundações representará uma economia de 150 milhões anuais ao Estado gaúcho, mas “esse valor não faz nem ‘cócegas’ no déficit do Estado. A FEE por exemplo representa 0,07% do orçamento do Estado”. (…) “O grande problema fiscal do Estado, seja estadual, seja federal, é de receitas e não de despesas: o Estado arrecada cada vez menos, e o Brasil é um dos países campeões em sonegação”.

As atividades dessas fundações extintas falam por si só sobre a importância das mesmas para o Estado. Em seu conjunto atuam na administração do Zoológico, do Jardim Botânico, na produção de soro antiofídico, constroem indicadores econômicos, realizam análises de conjuntura, operam a FM Cultura e TVE, pesquisas em saúde, pesquisas agrícolas, controle de zoonoses, desenvolvimento de Ciência e Tecnologia, Recursos Humanos, estudo de viabilidade do polo petroquímico entre outras importantes intervenções. Citando o economista Thomas Fiori da FEE “Quanto vale o conhecimento que nós produzimos? ”

A jornalista Cristina Charão, da TVE argumentou: “Existe um consenso na Declaração Universal de Direitos Humanos que a liberdade de expressão é um direito fundamental. As emissoras públicas nasceram por isso, para não deixar toda a comunicação submetida ao sistema privado. (…) A extinção da Fundação Piratini, da TVE e da FM Cultura, são agressões a esses direitos fundamentais. Não estamos na mira do governo Sartori porque há uma crise financeira, mas sim porque o que eles querem implementar no Rio Grande do Sul e no país é um modelo sem ciência e sem cultura, sem cérebro e sem coração. O pacote do Sartori transforma o Rio Grande do Sul em um estado zumbi”.

O professor Ludwig Buckup, Doutor em Zoologia, criticou duramente a proposta de extinção da Fundação Zoobotânica (…) “Na verdade, a Fundação Zoobotânica incomoda já não é de hoje. Quantas vezes a Secretaria do Meio Ambiente – SEMA, no governo Yeda, resistiu aos estudos e pareceres da Fundação sobre a silvicultura. Hoje, a SEMA é muito competente em emitir licenças para o plantio de eucalipto e para grandes empreendimentos”.

A extinção das Fundações, no entanto, não traz consigo a extinção da necessidade dos trabalhos por elas realizados. E aí é que se evidencia a hipocrisia das reformas “administrativas”. A meta é privatizar e precarizar todas essas ações, certamente, através de Organizações Sociais – OSs e empresas privadas de consultoria que não mais estarão a serviço do estado e seu povo e sim da dominação, do atraso e da perda de soberania.

Enfim, muito se tem discutido e denunciado no decorrer desse processo mórbido empreendido por um demente perverso a serviço do atraso e da truculência. Mas, o que fica de tudo isso? A privatização do estado e a reserva de mercado de trabalho para as consultorias e ONGs. Os contratos de prestação de serviços (para substituir o trabalho que é realizado pelas fundações) já devem estar prontos na Fiergs, na Federasul, na Farsul”.

Só resta, ao povo do Rio Grande, voltar as suas tradições de luta e resistência e exterminar os delírios de um governador que nada mais é do que o coveiro do Rio Grande.

Fontes:
Reportagem é de Marco Weissheimer, publicada por Sul21, 08-12-2016.
Blog de Milton Ribeiro
Entrevista de Tarson Núñez, da Fundação de Economia e Estatística – FEE, à IHU On-Line.
https://pt.wikipedia.org/wiki/Província_de_São_Pedro_do_Rio_Grande_do_Sul

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GLOSSÁRIO DO GOLPE

                                         “(…) nestes quarenta anos dissemos muitas palavras na América Latina: dissemos crescimento, desenvolvimento, estruturas, eficácia. Sobre essas palavras construímos castelos de pensamento só para descobrir, muito depois, que o castelo era um cárcere e nós mesmos seus presos ou pior ainda, seus guardiães”

(Testa M., Pensar em Saúde).

 

As palavras são usadas para expressar fatos, opiniões, emoções, informações, posições políticas, extravasar preconceitos e conceitos, enfim, são o mais importante meio que temos de nos comunicar. As palavras são signos usados na retórica da luta ideológica para o convencimento das pessoas e para difundir ideias e pensamentos. As palavras são fundamentais nos espaços como o parlamento, os conselhos de controle social, as escolas, os partidos políticos enfim, os lugares onde mediante os debates e discussões as pessoas procuram convencer as outras sobre as ideias que acreditam. Os políticos, golpistas ou não, sabem disso.

Desde quando começou no Brasil, a fase neoliberal do capitalismo percebi que houve uma mudança muito intensa no sentido das palavras usadas em nossas falas cotidianas e técnico-administrativas. Essas mistificações não começaram apenas a partir dos anos 1990 mas foi nessa época que eu percebi isso. Entre as expressões, usadas com grande entusiasmo naquele tempo, destacavam-se “estado mínimo”, “privatização”, “livre jogo dos mercados”, “globalização”, “cortar as gordurinhas”, “enxugar a máquina”, entre outras. Todas buscavam mascarar as mudanças na Constituição de 1988 e preparavam o país para o mais agressivo crime de “lesa-pátria” que ocorreu em nossa história, a conhecida “privataria tucana”, coroada com o rótulo mágico de “modernidade”.

As agências nacionais e internacionais que representam o mercado usam massivamente as palavras e os termos com o sentido distorcido ou como metáforas. A intenção é impregnar a mente das pessoas com as ideias que querem tornar dominantes e cristalizar o pensamento até que este fique impermeável a qualquer questionamento. No atual momento brasileiro nunca foram usadas tantas palavras com o sentido encoberto para encaminhar e garantir o golpe. Devido a isso imaginei que seria interessante organizar um “Glossário do Golpe”. É um glossário que obviamente está em aberto pois a imaginação dos golpistas não tem limites. Portanto, caso lembrem palavras e expressões podem colaborar acrescentando no glossário E, acima de tudo não repitam essas palavras. Quando as usarem expliquem o sentido real. É mais um espaço de luta que iremos ocupar. Eis o que lembrei até agora:

 

“Glossário do Golpe”

1) Abertura – o real significado é o desmonte dos mecanismos de defesa de uma economia periférica e frágil

2) Arrumar a casa – diminuir o tamanho do Estado mediante a eliminação das estruturas que operam as políticas sociais e os respectivos cortes no orçamento.

3) Austeridade – no uso do dinheiro público é a prática de cortar os gastos essenciais necessários e usá-los para formar um “superávit” denominado ”superávit primário”.

4) Choque de Gestão – palavra mágica da administração neoliberal significa cortar direitos dos servidores públicos, terceirizar, precarizar, demitir, oferecer o mínimo de serviços aos cidadãos.

5) Combate à corrupção – Expressão máxima do cinismo e do escárnio, que levou um conjunto de criminosos a condenar uma ré sem crimes e a um conjunto de denúncias seletivas para destruir partidos, empresas e lideranças populares.

6) Competitividade – tornar as mercadorias e bens do país atrativas para o capital internacional “vir às compras no Brasil”. Exploração em grau máximo dos trabalhadores/as com o discurso de diminuir o “custo Brasil”.

7) Condução Coercitiva – Exibicionismo da Polícia Federal estimulado pela mídia golpista para dar ocupação ao criminoso condenado chamado “Japonês da Federal”. Uma das modalidades de linchamento político de cidadãos/ãs.

8) Conjunto da Obra – um suposto acervo de maldades e incompetências atribuídas à Presidenta Dilma Rousseff para suprir a falta de crime que fundamentasse o impedimento.

9) Delação Premiada – Histórias, verdadeiras ou não, contadas pelos acusados aos julgadores para diminuir a pena. No Brasil significa “passaporte para ladrões curtirem a pena em condomínios de luxo”.

10) Fazer o dever de casa – submeter-se, sem discussão, aos mandamentos do capital rentista e das transnacionais até transformar o país em uma colônia povoada de escolares com deveres de casa a cumprir.

11) Falta de credibilidade – resultado de medidas e decisões do governo que fazem o mercado desconfiar que o governo não queira fazer o “dever de casa”.

12) Falta de diálogo com o Congresso – Resistência da Presidenta em se submeter às chantagens dos partidos, deputados e senadores na prática do “toma lá, dá cá”.

13) Falta de governabilidade – conjunto de pressões, boicotes, traições, violências jurídicas, parlamentares, empresariais e políticas que impedem o governo de governar e que ocorrem sempre, segundo os golpistas, por “culpa do próprio governo”.

14) Firme convicção – Sinônimo de Prova do Crime, usada por alguns Procuradores da República para disseminar calúnias e acusações contra cidadãos/ãs, em especial contra lideranças populares.

15) Flexibilizar a legislação trabalhista – Destruir a CLT e todos os direitos que protegem os/as trabalhadores/as, perseguir o sonho inalcançável do retorno à escravidão.

16) Governança – Termo traduzido do inglês e que significa governar, tanto se aplica a governança de hotéis como a entidades públicas e privadas ou aos governos. Dilui o sentido de Governo.

17) Impeachment – a tradução é Impedimento. Forma “fina e elegante” de referência ao golpe (sempre em inglês, a língua mãe dos traidores).

18) Justiça – substantivo exaustivamente usado pelos autores do pedido de impedimento e que depois de acusar, sem achar o crime, ainda chorar pelos filhos e netos da ré.

19) Lei de Responsabilidade Fiscal – na realidade define que os recursos públicos devem ser prioritariamente usados para pagar juros ao sistema financeiro, em detrimento de todos os demais gastos do Estado.

20) Mercado – pequeno grupo de multimilionários, inversores, especuladores e rentistas, e seus “empregados”, a saber, os economistas – chefes dos bancos e fundos, jornalistas e escritores de economía e seus associados no exterior.

21) Pacificar o país – levar a sociedade brasileira à aceitação do golpe, ao conformismo, à desesperança e ao desânimo, sem reclamar.

22) Pagar o pato – palavra de ordem da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo – FIESP para incitar os/as cidadãos/ãs a sonegar impostos a exemplo de notórios diretores da própria FIESP.

23) Pedaladas – Tipo de crime orçamentário que só existiu durante a gestão da Presidenta Dilma Rousseff. Não existia antes, foi legalizado depois do golpe e é exaustivamente usado por governos estaduais e municipais.

24) Segurança Jurídica – estabelecer normas rígidas para garantir a dissipação do patrimônio público, a devastação ambiental e a liquidação do Estado sem possibilidade de contestação legal.

25) Virar a página – consumar o golpe.

 

E, finalmente, LUTA E RESISTÊNCIA, palavras que não precisam ser explicadas pois fazem parte de toda a nossa vida.
Até a Vitória!

Florianópolis, 21/9/2016.

SOBRE O GOLPE

 

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SOBRE O GOLPE

Nós mulheres integrantes da Rede Nacional Feminista de Saúde Direitos Sexuais e Direitos Reprodutivos vimos de público manifestar a nossa posição frente aos recentes acontecimentos políticos ocorridos no Brasil.

Manifestamos nossa indignação e nosso sentimento da irreprimível necessidade de lutar pela normalidade democrática e pela continuidade do processo civilizatório do país e de seu povo.

Ao testemunharmos a conspiração que culminou no afastamento da Presidenta Dilma Rousseff é bom recordar a primeira frase de “O Processo” de Kafka – “Certamente alguém havia caluniado Josef K., pois uma manhã ele foi preso sem que tivesse feito mal algum”. E assim se deu. Uma presidenta que não tem nenhum crime comprovado para a deflagração de um processo de impeachment foi julgada por uma Câmara e um Senado, presididas por criminosos, acompanhados de dezenas de deputados federais e senadores portadores de fichas sujas, verdadeiros delinquentes a comporem um tribunal de exceção. O golpe foi cuidadosamente planejado e executado pelas forças mais conservadoras do Brasil. Ou seja, o capital rentista internacional, o empresariado parasitário, um poder judiciário letárgico e conivente, uma mídia hegemônica, representante do anti-jornalismo, meros ventríloquos de calúnias, intrigas e mensagens raivosas orquestradas pela classe dominante e pelos derrotados de 2014. Um dos objetivos foi instigar a exacerbação do ódio de classes e da misoginia o que extravasou nas ruas. Setores da população se apropriaram das cores da bandeira como se os símbolos nacionais fossem objetos a serviço da alienação e do analfabetismo político. Aflorou com força avassaladora o machismo, a agressão sem limites, a vulgaridade e a violência contra a maior autoridade do país, eleita legitimamente.

O espetáculo mais degradante, contudo foi o “show de horror” protagonizado pela Câmara Federal no dia 17 de abril e depois no Senado. Hoje aí está o novo governo. Um ajuntamento de homens brancos, ricos, conservadores, transpirando machismo, homofobia, autoritarismo. Ansiosos para se ajoelhar frente ao capital internacional, de entregar as riquezas que ainda restaram depois da “privataria tucana”, de exterminar todo e qualquer avanço das lutas sociais das mulheres, negros/as, LGBTs, camponeses/as, operários/as, quilombolas, jovens e oprimidos/as em geral.

Iniciaram as mudanças nos ministérios, os empresários e banqueiros já começaram a cobrar a fatura, os vassalos do golpismo apressam-se a obedecer. A infâmia é infinita, mas a nossa perseverança e resistência é maior.

Contra todo esse quadro triste e nefasto, contra essa conjuntura adversa e corrosiva é que nós, mulheres, mais uma vez nos manifestamos. Expressamos o mais profundo repúdio e repulsa aos traidores e usurpadores da legitimidade do governo da república.

 

Não ao golpe!

Não ao machismo e à misoginia!

Pela unidade das forças populares e progressistas!

Sobre o Golpe!!

 

Queridas/os companheiras/os, camaradas e amigas/os,

Ontem, dia 17/4/2016 assistimos a um evento macabro e brutal que imaginava não iria mais acontecer no Brasil. Ao ver aqueles homens e mulheres transformados/as em uma horda histérica, transtornados em surtos de violência e degradação pessoal encenando uma verdadeira sessão de um tribunal de inquisição, onde queimavam a presidenta da república tive uma incrível sensação de ter voltado aos anos da ditadura militar. Mas, era uma fogueira onde aquelas criaturas odiosas exorcizavam o ódio, a misoginia, os preconceitos e a truculência de um fazer político atrasado e primitivo. Confesso que senti dor e muita pena de minha pátria/mátria amada tão gentil!

A maior tristeza no entanto, foi ver aquelas mulheres deputadas que de forma patética declaravam seus votos contra a primeira mulher presidenta e que elas condenavam sem que esta tivesse cometido nenhum crime. O mais dramático ainda, era a expressão delas, após o voto pedindo, com os olhares alienados, uma espécie de aprovação para aqueles homens hostis e ridículos postados à margem do local de votação. Eram as “mulherzinhas” prestando contas de sua submissão e perversidade.

Ontem, foi demonstrado com sucesso o resultado, de um plano de ultraje à democracia brasileira e à dominação de nossa economia (ou o que ainda resta de nossas riquezas) planejado e executado meticulosamente pelo capital rentista internacional, pela burguesia local, pelos seus representantes no judiciário, executivo e legislativo, pela grande mídia a serviço da alienação e embrutecimento do povo. No início fiquei arrasada, revoltada, triste e sem enxergar alternativas. Mas, o ódio e a raiva não são boas companhias quando necessitamos raciocinar e entender o que acontece com lucidez estratégica. Certamente a luta continua!! Derrubamos uma ditadura sanguinária, enfrentamos anos de recessão, entreguismo e violência, passamos por uma liquidação intensa do patrimônio nacional durante a “privataria tucana”, suportamos humilhações, tristeza, tortura, morte e desesperança, mas continuamos. E já que os tempos nos remetem a essas situações passadas, que imaginei superadas, lembrei-me de um poema muito falado nos tempos sombrios que já vivemos e que dedico aos deputados e deputadas que resistiram naquela arena e a todas/os nós que aqui estamos presentes:

 

Tarefa
Geir Campos

Morder o fruto amargo e não cuspir
mas avisar aos outros quanto é amargo,
cumprir o trato injusto e não falhar
mas avisar aos outros quanto é injusto,
sofrer o esquema falso e não ceder
mas avisar aos outros quanto é falso;
dizer também que são coisas mutáveis…
E quando em muitos a noção pulsar
— do amargo e injusto e falso por mudar —
então confiar à gente exausta o plano
de um mundo novo e muito mais humano.

A REDE FEMINISTA E OS RISCOS À DEMOCRACIA E À SAÚDE DAS MULHERES

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A REDE FEMINISTA E OS RISCOS À DEMOCRACIA E À SAÚDE DAS MULHERES
24/03/2016

A Rede Nacional Feminista de Saúde Direitos Sexuais e Direitos Reprodutivos, entidade do movimento de mulheres com presença em todo o país, vem a público apresentar seu posicionamento e suas preocupações em relação ao momento atual em que a democracia está em risco.

Verificamos a rearticulação de forças conservadoras para obter retrocessos em relação aos direitos das mulheres – exclusão de gênero nas políticas públicas, criminalização da informação sobre direitos reprodutivos nos casos de violência sexual e um conjunto de projetos no Congresso Nacional que dificultam ainda mais a implementação de políticas públicas que poderiam reverter a situação de vulnerabilidade das mulheres e meninas. Vemos o crescimento de uma epidemia relacionada ao Aedes egypt, o ZikaVÍrus, que ameaça o processo gestacional e afeta gravemente com malformações fetos e futuros bebês devido a microcefalia e outros agravos. E ao mesmo tempo há nítida tentativa de esvaziamento da democracia, de fragilização das instituições políticas e jurídicas.

Nossa entidade tem se pautado ao longo de três décadas de existência na defesa da democracia e do estado de direito, um espaço de cidadania que nos permitiu lutar e conquistar uma série de direitos, como a Política Nacional de Atenção Integral à Saúde da Mulher, a Lei Maria da Penha, entre outras, e um ciclo de políticas públicas nascidas do processo de Conferências Nacionais.

Não temos ainda a democracia que queremos, pois as mulheres são absoluta minoria nos espaços de poder e decisão. Ainda morrem por causas evitáveis e pela violência doméstica e de gênero. Entendemos que é preciso ampliar esta democracia, torná-la mais aberta e transparente, e que o modelo de desenvolvimento deve estar mais voltado à desconcentração da renda e numa perspectiva de sustentabilidade social e econômica.

No entanto, nada pode justificar os ataques machistas e misóginos em relação à presidenta da república e ataques a lideranças reconhecidas nacional e internacionalmente.Nada pode substituir o cumprimento fiel do papel das instituições neste momento de extrema gravidade para o país. Não aceitamos a quebra de regras democráticas, condenações sem provas, constrangimento à cidadania e promoção do descrédito na justiça. A quem recorreremos para a defesa de nossos direitos? A quem denunciaremos as violações dos direitos humanos das mulheres? O que sobrará deste país depois de sua destruição enquanto um estado democrático de direito?

Em defesa da democracia, da igualdade de gênero e pelo fim de todas as formas de discriminação, e das políticas públicas que ao longo das duas últimas décadas foram construídas em nosso nome, com a nossa luta, nos posicionamos contra toda e qualquer tentativa de golpe.
Em defesa da democracia e da igualdade, assinamos todas pela:

REDE FEMINISTA DE SAÚDE DIREITOS SEXUAIS E DIREITOS REPRODUTIVOS – BRASIL
Filiada à Red de Salud de lasMujeresLatinoamericanas ydel Caribe

Secretária Executiva:
Clair Castilhos Coelho
Associação Casa da Mulher Catarina – Florianópolis/SC
Secretária Adjunta:
Sheila Sabag
Associação Casa da Mulher Catarina – Florianópolis/SC

CONSELHO DIRETOR
BAHIA
Maria José de Oliveira Araújo
Instituto Mulher pela Atenção Integral à Saúde e Direitos Humanos -IMAIS
Lilian Fatima Barbosa Marinho
Instituto Mulher pela Atenção Integral à Saúde e Direitos Humanos -IMAIS

DISTRITO FEDERAL
Rayane Noronha
Associação Lésbica Feminista Coturno de Vênus
Gabriela Rondon
Anis

MINAS GERAIS
Maria Dirlene Trindade Marques
Movimento do Graal no Brasil
PARÁ
Marta Giane Machado Torres
Fórum de Mulheres da Amazônia Paraense

PARANÁ
Elaine Galvão
Espaço Mulher –
Alaerte Leandro Martins
Rede de Mulheres Negras do Paraná

RIO DE JANEIRO
Maria do Espírito Santo T. dos Santos (Santinha)
Centro de Documentação e Informação Coisa de Mulher

RIO GRANDE DO SUL
Telia Negrão
Coletivo Feminino Plural –
Rosmari de Castilhos
Ilê Mulher

SANTA CATARINA
Vera Lúcia Fermiano
Associação Casa da Mulher Catarina –

SÃO PAULO
Eliane Kalmus
Ponto Focal

Agressão contra Lula é para acelerar golpe contra a democracia

Queridas companheiras e camaradas,
dada a gravidade do momento politico que estamos atravessando tomo a liberdade de repassar-lhes a nota política do meu partido, o PCdoB a respeito dos graves acontecimentos do dia de ontem. Se concordarem com a análise e a avaliação, por favor repassem para as suas listas.
Um grande abraço,
Saudações Democráticas e Feministas,
Clair Castilhos

 

Agressão contra Lula é para acelerar golpe contra a democracia

O ex-presidente Lula, respeitado no Brasil e no mundo inteiro, foi levado arbitrariamente para prestar depoimento na Polícia Federal. É uma agressão inaceitável não só contra Lula, mas à própria democracia, com o objetivo calculado de acelerar a marcha golpista que visa depor a presidenta Dilma Rousseff.

É hora de mobilização, luta e vigília de todos os democratas, de todas as forças vivas do povo e dos trabalhadores. É hora de indignação, de tomada de posição em defesa da democracia e do ex-presidente Lula, maior líder e estadista do Brasil contemporâneo, conforme é dito pelo povo em reiteradas pesquisas de opinião.

O Instituto Lula também foi alvo dessa investida, à qual reagiu com uma nota pública que rechaça com argumentos sólidos todas as falsas acusações lançadas contra o ex-presidente.

Esta arbitrariedade, essa injustiça contra Lula, partiu da Operação Lava Jato que há meses afronta a legalidade democrática e empreende uma caçada ao ex-presidente. Não há motivo algum para que Lula fosse levado à força pela PF, uma vez que ele prestou esclarecimentos toda vez que foi convidado pelas autoridades. Ações de força e espetaculares conflagram a sociedade e não contribuem para que haja justiça e prevaleça a verdade.

Fica escancarado com esse episódio e outros tantos que a Operação Lava Jato em conluio com a grande mídia se transformou em uma espécie de poder paralelo formado por setores da Polícia Federal, do Judiciário e do Ministério Público. Poder paralelo que, progressivamente, agigantou-se impondo métodos e práticas típicas de um regime de exceção, claramente direcionados para desacreditar o governo, investigar e criminalizar apenas as forças que o sustentam, notadamente o PT e a esquerda aliada.

Esse ataque a Lula vem da força e esperança que o ex-presidente representa. O fato de o ex-presidente manter-se – conforme apontam pesquisas de intenção de voto – competitivo para as eleições presidenciais de 2018 é o que explica a violência política que não cessa contra ele.

A verdade é uma só: A direita neoliberal tem medo de perder as eleições em 2018 para Lula, esta é a razão verdadeira da caçada empreendida pela Operação Lava Jato contra ele.

Este ato de provocação da Lava Jato é também um estratagema dos golpistas. Se não houver reação à altura, com certeza eles irão acelerar a consumação do golpe.

Nesta hora decisiva, o PCdoB se dirige a todas as forças democráticas da Nação, ao conjunto das forças progressistas e populares para que, a despeito de divergências, nos unamos em mobilização, luta e vigília em defesa da democracia, do Estado Democrático de Direito.

O PCdoB convoca seus militantes a se engajarem nesta jornada decisiva para os interesses do povo e da Nação. Já a partir de hoje é preciso, em todos os munícipios, nas ruas, em manifestações diversas cada vez mais amplas, em conjunto com as demais forças progressistas, firmarmos a defesa da democracia, repudiarmos as arbitrariedades que pisoteiam o Estado Democrático de Direito.

A democracia vencerá o golpismo!

Todo apoio ao ex-presidente Lula!

São Paulo, 4 de março de 2016

A Comissão Política Nacional do Partido Comunista do Brasil – PCdoB

Sinfonia de apitos

APITO

Pequena divagação dedicada a Noel Rosa

 

Muito tenho pensado sobre apitos. O meu companheiro e eu somos uma espécie em extinção. Éramos professores universitários, saúde pública, universidade federal de Santa Catarina. No tempo em que Saúde Pública era pública e não “coletiva”, que hoje tanto pode ser publica como privada… Nem sempre universal e muito menos pública. Ah!…as palavras. Pois bem, corriam os tempos da ditadura militar, muita repressão, silêncio, horror, tortura e morte. Mas, também, muita resistência e enfrentamento, muita rebeldia e criatividade. Seria mentira dizer que não acontecia festa e alegria, afinal, apesar dos milicos havia vida inteligente no Brasil. Não corríamos o risco de em se vestindo de verde, pastar a própria farda…aliás, piada muito conhecida e utilizada na época.

E, nesse quadro todo, as formas de manifestação eram variadas. Passeatas, apitaços, panfletagens, greves, ocupação do campus universitário. As greves não eram terceirizadas. Os materiais eram feitos manual e pessoalmente pelos manifestantes que pintavam as faixas, rodavam os panfletos em mimeógrafo a álcool, distribuíam o material de mão em mão, as palavras de ordem no “boca a boca”, os professores mais “prendados” faziam bolos, doces, sanduíches, sucos para vender e arrecadar fundos, os megafones e os carros de som com voz presencial (não se usava, ainda, gravações, só para as músicas), os telefones grampeados e as ligações difíceis. Quando tinha uma ligação interurbana, alguém do grupo gritava, “chamada de longa distância para o comando”… depois melhorou, foi o tempo do Telex e do FAX enfim chegou a revolução técnico-informacional científica. Eficiente, rápida, fácil, mas…muito sem graça. Não quero negar e nem rejeitar a evolução, mas tenho a sensação que estamos sendo pasteurizados.

Esta impressão é que reforça a percepção de ser alguém que não está “formatada” para a contemporaneidade. No entanto, mesmo nesta atual fase de vida, mais restrita e recolhida, as coisas modernas e atualizadas fazem parte do meu cotidiano.

Vejamos: eu tinha dois “notebooks”, um velho e outro novo. Estava fazendo o “back up” do velho para o novo, transpondo os meus arquivos, textos, endereços, discursos, aulas, fotografias, enfim, coisas que eu não queria perder, caso o computador velho parasse de vez. Eis, que em plena tarde, num dia de sol, entrou um ladrão na minha casa e levou os dois computadores que estavam na sala. Não roubou mais nada porque viu que tinha gente em casa. Em poucos minutos fiquei sem nada do que queria preservar. A partir daí começou a loucura e a paranoia da necessidade de segurança na casa. Fazer grades de ferro, portas e janelas pantográficas, instalar alarme, limpar o olho mágico (nunca foi usado, mas enfim…), colocar em uso a tranca da porta, colocar chave mestra com quatro faces, adestrar o cachorro que dormia profundamente na hora do assalto, treinar os moradores para operar o alarme, reconhecer os diferentes apitos. Uma verdadeira parafernália para aquisição de novas habilidades não previstas e nem desejadas.

A partir daí percebi que computadores embora super necessários não são tão vitais assim. Comecei também a observar o cotidiano da vida doméstica considerando que não tinha mais como me entreter com os prazeres dos jogos digitais. Eis que percebo uma infinidade de barulhos tecnológicos semelhantes a uma sinfonia de apitos, um apitaço! Sibilos, uivos, trinados, assobios e outros ruídos similares. Em meio a situações complexas e estressantes como cozinhar, por exemplo, vou vivendo. Em momentos de pico das atividades me deparo com o forno de micro-ondas apitando, o forno elétrico apitando, a campainha silvando alucinada com a chegada do entregador de gás, quando vamos atender a porta dispara o alarme, ao voltar à cozinha o apito resfolegante de uma nova chaleira que tem um bico estreito e solta vapor, avisa que a água ferveu. Penso que é uma adaptação da velha “Maria Fumaça” criada por algum designer neo-criativo que ganhou o mercado doméstico. Enfim quando termina a insana correria para atender todos os apitos, exausta sento para tomar um inocente café com torrada, pois caso aumente o peso haverá sem dúvida o apito da balança na minha mente disciplinada e faminta. Mas, aí começa a assobiar o WhatsApp…vou atrás do barulhinho e ouço um outro apito, como um guincho alucinado, olho o que é e vejo um rato amassado, não me assusto, a minha muleta apenas apertou o brinquedo da gata da minha filha. Ufa!

Neste momento lembro-me do velho samba de Noel que encanta os ouvidos e a sensibilidade até falando dos irritantes apitos:

 

(…) Quando o apito da fábrica de tecidos

Vem ferir os meus ouvidos

Eu me lembro de você.

(…)

Você que atende ao apito

De uma chaminé de barro,

Por que não atende ao grito tão aflito

Da buzina do meu carro?

(…)

Mas você é mesmo

Artigo que não se imita,

Quando a fábrica apita

Faz reclame de você.

DISCURSO EM DEFESA DA DEMOCRACIA

DISCURSO EM DEFESA DA DEMOCRACIA
ATO ORGANIZADO PELO DEP. CÉSAR VALDUGA – PCdoB
ASSEMBLÉIA LEGISLATIVA DO ESTA DE SANTA CATARINA
3/12/2015
Clair Castilhos Coelho

Exmos/as Senhores/as Deputados/as, companheiros/as homenageados/as, senhores e senhoras,

É com grande alegria que dirijo estas palavras a vocês. Há um significado especial nesse ato em que a Assembleia Legislativa do Estado de Santa Catarina por iniciativa do Deputado César Valduga nos honra com essa homenagem. E o faz na forma de uma sessão especial denominada em DEFESA DA DEMOCRACIA.

Nada mais oportuno se considerarmos o momento político que nosso país atravessa.

Há 51 anos ocorreu o golpe militar de 1º de Abril de 1964. Não foi o único golpe e nem a única ditadura pelas quais o nosso país foi violentado. Mas, esse foi o golpe que coube à nossa geração sofrer.

Uma brutal articulação civil-militar que vitimou as lideranças democráticas, as ideias libertárias, as expectativas de avanços políticos, econômicos e, acima de tudo, assassinou um projeto de nação. Para abafar esses desejos e esses valores essenciais foram utilizados os meios mais truculentos, todas as formas de violação dos direitos humanos, o cerceamento das liberdades individuais, censura às artes, à imprensa e à cultura. Foi executado, com rara perversidade, um projeto imperialista de entrega de nossas riquezas, de nosso patrimônio natural, de nosso conhecimento científico e de nossa soberania.

Mas, em todo o processo social, em todo o conflito político é impossível fugir das contradições, da resistência, da luta e dos enfrentamentos. E este foi o nosso papel ao longo de quase 33 anos. Tempo este que custou muito sofrimento, tortura, humilhações, desaparecimentos, sangue e morte. Mas, que também foi riquíssimo em debates de ideias, discussões ideológicas, formulações de estratégias e táticas, de desmoralização dos opressores e acima de tudo, muita militância e coragem. Nesse tempo foi gestada a mais bela, sensível e criativa trilha sonora de uma geração. As mais inovadoras criações teatrais. Fluíam das palavras e das notas musicais, a resistência, a sensibilidade, a fina ironia e os brados de guerra. Ah! Quanto ódio e impotência contra nós. E é aí que nos inserimos.

Nós, Tínhamos 30 anos a menos, mas também a força, a coragem e o ímpeto que só é nutrido pelas grandes causas e pelos grandes ideais.

Resistimos, lutamos, defendemos nossa terra. Homens e mulheres que entregavam a vida, os sonhos e construíam a utopia.

Passou o tempo. O país foi sacudido pela Campanha das Diretas-Já, pela convocação da Assembleia Nacional Constituinte, pelo ressurgimento da presença da classe trabalhadora no cenário nacional, pelo movimento feminista, pelas lutas ecológicas, pelas eleições, pela Novembrada.

Enfim, renasceu o Brasil.

Mas, a burguesia, os vampiros saudosos da ditadura militar, os espectros da Casa Grande-Senzala, quais virulentas bactérias letais tentam ressurgir a cada momento. E hoje, mais do que nunca parecem revitalizadas em um cenário contemporâneo protagonizado pela globalização neoliberal, pela ditadura do capital, pelo fetiche do mercado, pela alienação. Na América Latina, e no Brasil, ocorrem tentativas de golpes ditos institucionais quando líderes de esquerda ou de centro-esquerda chegam aos governos. Foi assim na Venezuela, no Haití (2004), Bolivia (2008), Honduras (2009), Equador (2010), Paraguai (2012) e em marcha no Brasil (2015).

Estas tentativas são produzidas mediante uma ação conjunta entre a “midia” hegemônica, as corporações transnacionais, os poderes judiciário e legislativo e os partidos de oposição. Usam também processos de desestabilização psicológica e judicial, levantam a “sociedade civil” através das redes sociais. Mas, buscam isso, principalmente, devorando e destruindo a governabilidade.

Este é o quadro atual. Por isso a importancia desse ato aquí na ALESC pois além das homenagens também serve para relembrar a História e reunir cidadãos e cidadãs em defesa da democracia.

Serve para lembrar a todos que não éramos apenas jovens idealistas lutando contra a ditadura mas que também tínhamos a estatura dos Comunistas do poema de Pablo Neruda, aqueles que:

“(…) colocam a alma na pedra,
no ferro, na dura disciplina,homenagem mão
ali vivemos só por amor
e já se sabe que nos dessangramos
quando a estrela foi tergiversada
pela lua sombria do eclipse.
Agora vereis que somos e pensamos.
Agora vereis que somos e seremos.
Somos a prata pura da terra,
o verdadeiro mineral do homem,
a fortificação da esperança;
um minuto de sombra não nos cega:
com nenhuma agonia morreremos.”

Aliás, lembro com emoção e profundo respeito de Arno Lippel, Cirineu Cardoso, Roberto Mota, Adolfo Dias, Sérgio Giovanella, Marcos Cardoso Filho, Aléssio Verzola, “seu”Dibo, e, a grande e maravilhos militante que foi Eurídice Monteiro Sagaz.

Termino e aviso citando La Pasionária, heroína da Guerra Civil Española: “No pasarán!”

Quero neste momento dizer que dedico esta minha homenagem ao meu amado companheiro Alcides Rabelo Coelho, sem o qual esta trajetória teria sido muito mais difícil e penosa.

Adeus às ilusões…mulheres jogadas na bacia das almas!!

Olhando as terras devastadas pela guerra civil americana a personagem principal de um antigo romance épico “…E o vento levou”, diz no final: “Amanhã será outro dia!” Fico a pensar nestas narrativas quando observo e sinto a atual situação do Brasil. E, me pergunto se haverá outro dia.

Ordenando os fatos históricos no tempo é possível analisar. Primeiro, em 2014, a campanha pela reeleição da Presidenta Dilma Rousseff foi um difícil e rasteiro processo eleitoral. As propagandas, caríssimas, comerciais a vender mercadorias políticas, muitas vezes de qualidade duvidosa, repletas de infâmias e mentiras, polarização de acusações ao invés de debates de ideias, ausência de propostas reais e consistentes e um terrível aroma de lixão que exalava daquilo tudo. Discussão política, nem pensar! Depois foi a vitória, apertada, mas legítima e inquestionável. Para a oposição a derrota não foi suficiente. Desde o resultado até hoje são produzidas diariamente ameaças, denúncias e difamações que se estendem desde a simples falta de educação até as agressões mais violentas e sórdidas à presidenta reeleita e ao seu partido. O juízo de valores a respeito desse processo é algo a ser feito com muito critério e com um distanciamento, que talvez só o tempo irá proporcionar. No entanto, o dia a dia dos fatos brinda à população brasileira episódios dolorosos de vacilações, entregas, humilhações e subserviência da presidenta às chantagens e pressões dos representantes do mercado e dos políticos que servem a essa ordem internacional. Incapaz de se insurgir contra essa situação, o governo, e aí incluídos os partidos da base aliada e seus representantes, sucumbem a uma interminável sucessão de recuos, contradições e traições. A tática anunciada logo após a eleição pelos representantes oposicionistas é que iriam “sangrar a Dilma”. E, isso vem sendo feito com extrema competência e meticulosidade. A cada dia aparece um fato novo, uma nova denúncia, uma notícia “bombástica”.

Os líderes e partidos de situação reagem com atitudes desconexas, aturdidos, acovardados e não ocorre o enfrentamento, apenas, a cada ameaça, mais um passo atrás. E, assim passam-se os meses. Pairando sobre tudo a ameaça do impeachment e a perda do poder de governar o Estado. Poder este que até agora pouco se mostrou. A nova e momentânea reação foi a de fazer uma reforma ministerial, um corte de despesas, compor um governo de coalizão.

Neste meio tempo acontece o programa partidário do PMDB onde as ameaças e a intimidação foram escancaradas. Tudo sob um formato sombrio, um desfile interminável de homens de preto, com carrancas sisudas (para demonstrar seriedade e preocupação), um cenário nebuloso apresentando uma sucessão de frases de efeito encobrindo o próximo movimento, ou seja, abocanhar o maior número possível de ministérios. Aumentar as possibilidades de usar o dinheiro público a “ser subtraído em tenebrosas transações”.

Enfim, montada a inominável farsa ocorre o grande espetáculo final. Reforma ministerial, corte de gastos (na área social, naturalmente), pessoas inexpressivas, aparentemente sem competência e nem conhecimento dos assuntos das pastas que irão ocupar, surgem na cena pública, emergindo dos subterrâneos de um congresso podre.

E, nós mulheres que imaginávamos que os nossos ínfimos espaços no aparelho de Estado seriam preservados, pois resultaram de mais de 30 anos de lutas e mobilizações assistimos o enterro da Secretaria de Políticas para Mulheres, Secretaria de Promoção da Igualdade Racial e dos Direitos Humanos. A ironia do processo é que o ex-presidente José Sarney, grande ícone civil da ditadura militar, formalizou a criação do Conselho Nacional dos Direitos da Mulher, no governo de Fernando Henrique Cardoso foi criada a Secretaria de Políticas para Mulheres, a mesma foi consolidada e fortalecida no governo Lula e no governo da primeira mulher presidenta, antiga militante contra a ditadura, cujo coração valente parece estar adormecido, foi extinto o único espaço exclusivo destinado á formulação, monitoramente e divulgação das políticas para as mulheres. Esse extermínio foi realizado da forma mais grotesca e decadente. Sem discussão e sem negociação. Aliás, paciência para negociação só existe para os polichinelos do mercado. Nenhuma mulher foi ouvida sobre o assunto. Sob a égide dos implacáveis homens de preto fomos jogadas na bacia das almas. Apelando para o “universo medieval (hoje em alta no Congresso Nacional) a bacia das almas era o recurso final dos que não tinham quaisquer outros recursos”. Ou, a expressão quer dizer simplesmente “a custo extremamente baixo” , e assinala o sentido de “situação dramática, desesperadora, crítica” , é o último momento, última oportunidade oferecida como piedade, quando outras oportunidades foram deixadas ou esquecidas anteriormente”. Parece ser essa a finalidade do novo ministério de Mulheres, Igualdade Racial e Cidadania, a de ser a bacia das almas dos movimentos sociais.

Certamente essa concepção nunca correspondeu e nem corresponderá ao sentido das posições libertárias das mulheres, das intensas jornadas de lutas contra a ditadura como o Movimento Feminino pela Anistia, da incansável militância das mulheres feministas, trabalhadoras do campo e da cidade, das mulheres negras, lésbicas, das donas de casa, das empregadas domésticas, das mulheres sindicalistas, enfim esse universo que contêm nada mais, nada menos que a maioria da população. No entanto, não tem direito a um ministério próprio com a capacidade e a finalidade de encaminhar as suas próprias demandas.

O patriarcado, o atraso, a prepotência e a covardia se impuseram com total virulência debilitando as ilusões e as utopias de um país mais justo, igualitário e prazeroso de se viver.

Os abomináveis espectros do autoritarismo e da arrogância venceram.

Até quando, vamos assistir a esse espetáculo deplorável?

Até quando deixaremos bloquear o futuro

AGORA CHEGA!

Clair Castilhos Coelho
2/8/2015.

mafalda

Em 1985 Eduardo Alves da Costa publicou um livro de poemas denominado “No Caminho, com Maiakóvski”. O poema título foi muito difundido através de discursos, panfletos, aulas, reproduzido em transparências (não havia ainda o “Power Point”) por professores, militantes, políticos e muitos outros que naquela época lutavam pelas liberdades democráticas. O poema na maioria das vezes foi atribuído ao próprio Maiakóvski.

Aqui cabem alguns lembretes aos/às novos/as viúvos/as da ditadura. A corrupção era endêmica no governo militar “Em 1963 a inflação era de 78%, vinte anos depois, em 1983 era de 239%.O endividamento chegou ao final da ditadura a US$ 100 bilhões e (…) as decisões econômicas eram tomadas não pelo ministro da economia, mas pelos tecnocratas do FMI chefiados pela senhora Ana Maria Jul”. Não havia nem soberania e nem mais dignidade nacional. Quanto ao capítulo da corrupção, é bom não esquecer e procurar os dossiês dos casos da Coroa-Brastel, Capemi, Projeto Jari, Luftalla, Banco Econômico, Transamazônica e Paulipetro.

Passaram os anos e em 1989 ocorreu a primeira eleição direta para presidente após a redemocratização. Fernando Collor foi eleito sustentado pelas principais forças de direita que anos antes haviam apoiado o golpe civil-militar de 1º de Abril de 1964. A tragédia brasileira se renovava com nuances de cinismo e farsa. As empresas estatais foram apelidadas de “elefantes brancos” e os servidores públicos de “marajás”. A poupança dos brasileiros foi confiscada.
A corrupção era epidêmica. Seguiu-se a cassação de Collor, a gestão de Itamar Franco, a eleição e reeleição de Fernando Henrique Cardoso pela coligação PSDB/PFL.

Quando Fernando Henrique Cardoso foi presidente o país assistiu estarrecido ao maior espetáculo de leilão, doação, concessão além de vultosas oferendas do patrimônio público ao capital privado. Foi o tempo da “privataria tucana”.

caveira

Foram entregues à rapinagem internacional e nacional as grandes empresas brasileiras a maioria originária da Era Vargas. O Brasil foi transformado num gigantesco brechó aonde o “mercado” vinha às compras. Nesta tragédia suicida   foi liquidada a Vale do Rio Doce, a Embratel e as telefônicas estaduais, a Companhia Siderúrgica Nacional, a Eletrosul, o Banespa e todos os bancos estaduais, enfim, em torno de 125 estatais. Era a grande demonstração de boa vontade que o Brasil exibia para se inserir na fase neoliberal do capitalismo que se implantava fortemente na América Latina. A prova de fidelidade a esse alinhamento, segundo os jornais da época,  era a venda  da Companhia Vale do Rio Doce, uma das maiores mineradoras do mundo referida pelos leiloeiros como a “joia da coroa”.

Esses leilões, ou crimes de “lesa-pátria”, nessa época foram travestidos de “modernidade”.

Mesmo com tanta boa vontade e subserviência o Brasil, nesse período, “quebrou” três vezes enquanto o FMI dava “régua e compasso” aos governantes/vassalos que gerenciavam o país.

Com o passar dos anos essa temporada de traição e vilania foi aos poucos entendida como um dos maiores crimes contra a soberania e o patrimônio nacionais. A tal ponto, que a partir daí os candidatos a presidente do PSDB, partido responsável por essa insânia, escondiam o nome de Fernando Henrique Cardoso nas campanhas eleitorais.

Finalmente, após quatro eleições as forças democráticas conseguiram eleger como presidente Luis Inácio Lula da Silva pelo PT em 2002. Lula foi reeleito e após o segundo mandato elegeu a sua sucessora, a Presidenta Dilma Rousseff que também foi reeleita. E assim se passaram 12 anos de governos do PT apoiados por uma extravagante coligação de “direita- centro-esquerda”!

A corrupção continua endêmica! O que mudou foi o cenário político.
Como sempre as elites conservadoras e reacionárias não descansam e não desanimam da sua faina cotidiana de se manter no poder e garantir a hegemonia política na luta de classes e a perenidade do capitalismo.

 

leilao

Agiram mediante um intenso assédio ideológico, midiático, informador e enformador de mentes, formatação e condicionamento de raciocínio, conceitual e político-partidário. Nunca aceitaram o fato de “um dos de baixo” ter ganhado uma eleição para o maior cargo político do país. Nesse aspecto é bom fazer uma ressalva, apenas foi ganha a eleição, ou seja, a possibilidade de administrar o Estado cuja natureza permanece a mesma. Para transformar é necessário romper com a estrutura e isso só com uma ruptura profunda, uma revolução. O que, certamente, não ocorreu! Não adianta exigir que a coligação de “direita-centro-esquerda” que assumiu o governo dê além daquilo que a realidade permite. O que não é possível aceitar é que tenha feito muito menos do que era necessário e possível para avançar. O que é impossível aceitar é que o governo tenha dado uma guinada à direita e se submetido às pressões do capital rentista mudando radicalmente a política econômica. Não adiantou a submissão, os ataques continuam cada vez mais virulentos e agora com o argumento de estelionato eleitoral. A operação de destruição do governo continua implacável.

O governo é acusado de tudo o que é execrável. Com fatos verdadeiros ou não. Foram e são acusados de corrupção, roubo e demais delitos correlatos. Os “malfeitos”! Os exemplos mais notórios são os processos do “mensalão” e do “lava-jato” entre outros. Muitas acusações são pertinentes e verdadeiras, mas o que é tristemente grave como efeito colateral dos julgamentos foi a devastadora ação deseducativa e antipedagógica sobre a percepção do povo a respeito do processo e do fazer da política.

A decepção e o desencanto com as lideranças históricas, muitas originárias das lutas contra a ditadura, provocou um grave desalento na militância, nos simpatizantes e na população em geral. Tudo isso somado à ação contínua, intensa, deletéria, alienante e agressiva dos “PIG” – Partido da Imprensa Golpista. Esses meios usam palavras e imagens com a nítida intenção de despertar na população raiva, insanidade e ódio irracional. Isto se traduz em agressões violentas, machistas, xenófobas e racistas. O alvo é o pensamento de esquerda, feminista, antirracista e libertário.

A personagem mais agredida e humilhada é a da Presidenta da República. Vítima de uma truculência sem igual se comparada aos outros presidentes do país. No lugar do debate político e ideológico, da discussão sobre as grandes questões nacionais, sobre os novos paradigmas, sobre este momento de transição no mundo e da crise do capitalismo os pontos centrais das contendas são rasteiros, paroquiais e vazios de ideias e propostas. E isto cabe para um grande número de sujeitos políticos de todas as cores do espectro ideológico.

O Brasil atravessa uma crise de pensamento, de credibilidade, de ideários consistentes e comprometidos com a emancipação do povo. As palavras de ordem se esgotaram e não sobrou nada. O resultado marcante é a desmobilização, a tristeza, a anomia e a apatia das forças progressistas.

A imagem dominante no Brasil é a de um país que está totalmente submetido ao pensamento conservador e fundamentalista. Os exemplos são dolorosos: o agronegócio é o grande motor da economia e salvador do PIB, a Petrobrás precisa ser privatizada, pois é um antro de criminosos, as massas estão nas ruas exigindo a saída da presidenta, a classe média urbana sofrendo de absoluta idiossincrasia ao governo federal e aos partidos que o sustentam, os deputados e senadores da bancada BBB (Boi, Bíblia e Bala) dominam o parlamento disseminando violência, agressões físicas e verbais inclusive contra as parlamentares mulheres que os enfrentam nos debates.

O fundamentalismo religioso e o conservadorismo ideológico disseminam a misoginia e o ódio contra qualquer atitude mais avançada. Uma verdadeira cruzada contra as mulheres e as reivindicações sobre os direitos sexuais e reprodutivos, os LGBTTs são demonizados, os jovens com prescrição legislativa de extermínio, os velhos culpados pelo déficit da previdência social, indígenas e quilombolas totalmente dispensáveis, os negros com lutas históricas contra a discriminação ainda padecem das crônicas iniquidades, ataques letais aos direitos trabalhistas. Nessa dinâmica perversa sobressai a imagem de uma sociedade hostil e desumana com os diferentes ou opositores. Uma sociedade dominada por uma minoria de homens brancos, ricos, de meia idade, capitalistas e agora acrescidos de religiosos fanáticos. Esse o quadro.

É de se perguntar, não existe mais nada no Brasil? Onde estamos? Será que o Brasil é apenas esse monte de lixo?

O filósofo Vladimir Safatle na coluna denominada “O paradigma da Representação” cita uma interessante passagem ocorrida na campanha eleitoral francesa. “Houve ao menos um belo momento na última eleição presidencial francesa, há alguns anos. O então candidato da Frente de Esquerda, Jean-Luc Mélenchon marcou um comício na praça da Bastilha, no dia em que se comemora a Comuna de Paris. Ninguém sabia quantas pessoas estariam presentes até que uma massa impressionante apareceu de maneira inesperada. Algo em torno de 100.000 pessoas. Diante de todas aquelas pessoas, o candidato teve a sagacidade de começar seu discurso perguntando: “Onde todos nós estávamos”?”

É hora de reagir. É hora de não ter timidez e nem deixá-los causar embaraços a nossas posições políticas. É hora de também nos perguntarmos: – Onde estamos? É hora de recordarmos o significado do belo trecho do poema

“No caminho, com Maiakóvski
(…) Lendo teus versos,india
aprendi a ter coragem.

Tu sabes,
conheces melhor do que eu

a velha história.

Na primeira noite eles se aproximam
e roubam uma flor
do nosso jardim.

E não dizemos nada.
Na segunda noite, já não se escondem:
pisam as flores,
matam nosso cão,
e não dizemos nada.

Até que um dia,

o mais frágil deles
entra sozinho em nossa casa,
rouba-nos a luz e,
conhecendo nosso medo,
arranca-nos a voz da garganta.
E já não podemos dizer nada.

Nos dias que correm
a ninguém é dado
repousar a cabeça
alheia ao terror.
Os humildes baixam a cerviz:
e nós, que não temos pacto algum
com os senhores do mundo,
por temor nos calamos.(…)

É hora de gritarmos, com toda a voz de nossa garganta, com toda a energia e coragem: Agora chega!