AGORA CHEGA!

Clair Castilhos Coelho
2/8/2015.

mafalda

Em 1985 Eduardo Alves da Costa publicou um livro de poemas denominado “No Caminho, com Maiakóvski”. O poema título foi muito difundido através de discursos, panfletos, aulas, reproduzido em transparências (não havia ainda o “Power Point”) por professores, militantes, políticos e muitos outros que naquela época lutavam pelas liberdades democráticas. O poema na maioria das vezes foi atribuído ao próprio Maiakóvski.

Aqui cabem alguns lembretes aos/às novos/as viúvos/as da ditadura. A corrupção era endêmica no governo militar “Em 1963 a inflação era de 78%, vinte anos depois, em 1983 era de 239%.O endividamento chegou ao final da ditadura a US$ 100 bilhões e (…) as decisões econômicas eram tomadas não pelo ministro da economia, mas pelos tecnocratas do FMI chefiados pela senhora Ana Maria Jul”. Não havia nem soberania e nem mais dignidade nacional. Quanto ao capítulo da corrupção, é bom não esquecer e procurar os dossiês dos casos da Coroa-Brastel, Capemi, Projeto Jari, Luftalla, Banco Econômico, Transamazônica e Paulipetro.

Passaram os anos e em 1989 ocorreu a primeira eleição direta para presidente após a redemocratização. Fernando Collor foi eleito sustentado pelas principais forças de direita que anos antes haviam apoiado o golpe civil-militar de 1º de Abril de 1964. A tragédia brasileira se renovava com nuances de cinismo e farsa. As empresas estatais foram apelidadas de “elefantes brancos” e os servidores públicos de “marajás”. A poupança dos brasileiros foi confiscada.
A corrupção era epidêmica. Seguiu-se a cassação de Collor, a gestão de Itamar Franco, a eleição e reeleição de Fernando Henrique Cardoso pela coligação PSDB/PFL.

Quando Fernando Henrique Cardoso foi presidente o país assistiu estarrecido ao maior espetáculo de leilão, doação, concessão além de vultosas oferendas do patrimônio público ao capital privado. Foi o tempo da “privataria tucana”.

caveira

Foram entregues à rapinagem internacional e nacional as grandes empresas brasileiras a maioria originária da Era Vargas. O Brasil foi transformado num gigantesco brechó aonde o “mercado” vinha às compras. Nesta tragédia suicida   foi liquidada a Vale do Rio Doce, a Embratel e as telefônicas estaduais, a Companhia Siderúrgica Nacional, a Eletrosul, o Banespa e todos os bancos estaduais, enfim, em torno de 125 estatais. Era a grande demonstração de boa vontade que o Brasil exibia para se inserir na fase neoliberal do capitalismo que se implantava fortemente na América Latina. A prova de fidelidade a esse alinhamento, segundo os jornais da época,  era a venda  da Companhia Vale do Rio Doce, uma das maiores mineradoras do mundo referida pelos leiloeiros como a “joia da coroa”.

Esses leilões, ou crimes de “lesa-pátria”, nessa época foram travestidos de “modernidade”.

Mesmo com tanta boa vontade e subserviência o Brasil, nesse período, “quebrou” três vezes enquanto o FMI dava “régua e compasso” aos governantes/vassalos que gerenciavam o país.

Com o passar dos anos essa temporada de traição e vilania foi aos poucos entendida como um dos maiores crimes contra a soberania e o patrimônio nacionais. A tal ponto, que a partir daí os candidatos a presidente do PSDB, partido responsável por essa insânia, escondiam o nome de Fernando Henrique Cardoso nas campanhas eleitorais.

Finalmente, após quatro eleições as forças democráticas conseguiram eleger como presidente Luis Inácio Lula da Silva pelo PT em 2002. Lula foi reeleito e após o segundo mandato elegeu a sua sucessora, a Presidenta Dilma Rousseff que também foi reeleita. E assim se passaram 12 anos de governos do PT apoiados por uma extravagante coligação de “direita- centro-esquerda”!

A corrupção continua endêmica! O que mudou foi o cenário político.
Como sempre as elites conservadoras e reacionárias não descansam e não desanimam da sua faina cotidiana de se manter no poder e garantir a hegemonia política na luta de classes e a perenidade do capitalismo.

 

leilao

Agiram mediante um intenso assédio ideológico, midiático, informador e enformador de mentes, formatação e condicionamento de raciocínio, conceitual e político-partidário. Nunca aceitaram o fato de “um dos de baixo” ter ganhado uma eleição para o maior cargo político do país. Nesse aspecto é bom fazer uma ressalva, apenas foi ganha a eleição, ou seja, a possibilidade de administrar o Estado cuja natureza permanece a mesma. Para transformar é necessário romper com a estrutura e isso só com uma ruptura profunda, uma revolução. O que, certamente, não ocorreu! Não adianta exigir que a coligação de “direita-centro-esquerda” que assumiu o governo dê além daquilo que a realidade permite. O que não é possível aceitar é que tenha feito muito menos do que era necessário e possível para avançar. O que é impossível aceitar é que o governo tenha dado uma guinada à direita e se submetido às pressões do capital rentista mudando radicalmente a política econômica. Não adiantou a submissão, os ataques continuam cada vez mais virulentos e agora com o argumento de estelionato eleitoral. A operação de destruição do governo continua implacável.

O governo é acusado de tudo o que é execrável. Com fatos verdadeiros ou não. Foram e são acusados de corrupção, roubo e demais delitos correlatos. Os “malfeitos”! Os exemplos mais notórios são os processos do “mensalão” e do “lava-jato” entre outros. Muitas acusações são pertinentes e verdadeiras, mas o que é tristemente grave como efeito colateral dos julgamentos foi a devastadora ação deseducativa e antipedagógica sobre a percepção do povo a respeito do processo e do fazer da política.

A decepção e o desencanto com as lideranças históricas, muitas originárias das lutas contra a ditadura, provocou um grave desalento na militância, nos simpatizantes e na população em geral. Tudo isso somado à ação contínua, intensa, deletéria, alienante e agressiva dos “PIG” – Partido da Imprensa Golpista. Esses meios usam palavras e imagens com a nítida intenção de despertar na população raiva, insanidade e ódio irracional. Isto se traduz em agressões violentas, machistas, xenófobas e racistas. O alvo é o pensamento de esquerda, feminista, antirracista e libertário.

A personagem mais agredida e humilhada é a da Presidenta da República. Vítima de uma truculência sem igual se comparada aos outros presidentes do país. No lugar do debate político e ideológico, da discussão sobre as grandes questões nacionais, sobre os novos paradigmas, sobre este momento de transição no mundo e da crise do capitalismo os pontos centrais das contendas são rasteiros, paroquiais e vazios de ideias e propostas. E isto cabe para um grande número de sujeitos políticos de todas as cores do espectro ideológico.

O Brasil atravessa uma crise de pensamento, de credibilidade, de ideários consistentes e comprometidos com a emancipação do povo. As palavras de ordem se esgotaram e não sobrou nada. O resultado marcante é a desmobilização, a tristeza, a anomia e a apatia das forças progressistas.

A imagem dominante no Brasil é a de um país que está totalmente submetido ao pensamento conservador e fundamentalista. Os exemplos são dolorosos: o agronegócio é o grande motor da economia e salvador do PIB, a Petrobrás precisa ser privatizada, pois é um antro de criminosos, as massas estão nas ruas exigindo a saída da presidenta, a classe média urbana sofrendo de absoluta idiossincrasia ao governo federal e aos partidos que o sustentam, os deputados e senadores da bancada BBB (Boi, Bíblia e Bala) dominam o parlamento disseminando violência, agressões físicas e verbais inclusive contra as parlamentares mulheres que os enfrentam nos debates.

O fundamentalismo religioso e o conservadorismo ideológico disseminam a misoginia e o ódio contra qualquer atitude mais avançada. Uma verdadeira cruzada contra as mulheres e as reivindicações sobre os direitos sexuais e reprodutivos, os LGBTTs são demonizados, os jovens com prescrição legislativa de extermínio, os velhos culpados pelo déficit da previdência social, indígenas e quilombolas totalmente dispensáveis, os negros com lutas históricas contra a discriminação ainda padecem das crônicas iniquidades, ataques letais aos direitos trabalhistas. Nessa dinâmica perversa sobressai a imagem de uma sociedade hostil e desumana com os diferentes ou opositores. Uma sociedade dominada por uma minoria de homens brancos, ricos, de meia idade, capitalistas e agora acrescidos de religiosos fanáticos. Esse o quadro.

É de se perguntar, não existe mais nada no Brasil? Onde estamos? Será que o Brasil é apenas esse monte de lixo?

O filósofo Vladimir Safatle na coluna denominada “O paradigma da Representação” cita uma interessante passagem ocorrida na campanha eleitoral francesa. “Houve ao menos um belo momento na última eleição presidencial francesa, há alguns anos. O então candidato da Frente de Esquerda, Jean-Luc Mélenchon marcou um comício na praça da Bastilha, no dia em que se comemora a Comuna de Paris. Ninguém sabia quantas pessoas estariam presentes até que uma massa impressionante apareceu de maneira inesperada. Algo em torno de 100.000 pessoas. Diante de todas aquelas pessoas, o candidato teve a sagacidade de começar seu discurso perguntando: “Onde todos nós estávamos”?”

É hora de reagir. É hora de não ter timidez e nem deixá-los causar embaraços a nossas posições políticas. É hora de também nos perguntarmos: – Onde estamos? É hora de recordarmos o significado do belo trecho do poema

“No caminho, com Maiakóvski
(…) Lendo teus versos,india
aprendi a ter coragem.

Tu sabes,
conheces melhor do que eu

a velha história.

Na primeira noite eles se aproximam
e roubam uma flor
do nosso jardim.

E não dizemos nada.
Na segunda noite, já não se escondem:
pisam as flores,
matam nosso cão,
e não dizemos nada.

Até que um dia,

o mais frágil deles
entra sozinho em nossa casa,
rouba-nos a luz e,
conhecendo nosso medo,
arranca-nos a voz da garganta.
E já não podemos dizer nada.

Nos dias que correm
a ninguém é dado
repousar a cabeça
alheia ao terror.
Os humildes baixam a cerviz:
e nós, que não temos pacto algum
com os senhores do mundo,
por temor nos calamos.(…)

É hora de gritarmos, com toda a voz de nossa garganta, com toda a energia e coragem: Agora chega!

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Publicado em 7 de agosto de 2015, em Uncategorized. Adicione o link aos favoritos. 18 Comentários.

  1. Mara Coelho de Souza Lago

    Muito bom, companheira! Ótimo que tenhas voz e nos exortes a não nos calarmos! Também estamos todas fartas de fundamentalismos, retrocessos e dessa política rasteira. A mídia, então, cada vez mais deploráve!
    Mara Lago

  2. Maria Amelia S. Dickie

    Clair, mais uma vez te admiro pela coragem e pela lucidez. Vou divulgar teu texto. Obrigada.

  3. Texto lúcido. Mas “O que é impossível aceitar é que o governo tenha dado uma guinada à direita e se submetido às pressões do capital rentista mudando radicalmente a política econômica”. Este é o pto. O clamor por impeachment é nojento, mas ressalte-se que o PT vem cavando essa cova há algum tempo. Escolheu ser complacente com o capital especulativo, com os grupos de mídia, os cartéis, aceitou manter o Brasil no papel subalterno de celeiro do mundo, exportador de matéria-prima. Essa escolha afastou os progressistas, os aliados ideológicos/programáticos – ñ os fisiológicos – q poderiam apoiá-lo numa eventual ação golpista. Sempre há tempo de reverter isto, mas ñ acredito q o partido o fará.

    • Ôi, Fernando, concordo plenamente contigo. Aliás, saiu um artigo do Wanderley Guilherme dos Santos que aborda esta situação analisando a formação histórico social do Brasil. Foi postado no Carta Maior, aconselho a leitura. Obrigada pela participação, Um grande abraço.

  4. Josimari Telino de Lacerda

    Clair, achei muito feliz esse texto. Compartilho dessa perplexidade e imobilismo. Mais uma vez obrigada. No entanto pergunto: quem vai chamar para nossa praça da Bastilha? Já é tempo…..
    Abraço
    Josi

    • Querida amiga Josi, aí é que está o problema. Acho que esta chamada terá que sair de cada um/uma de nós. Precisamos fazer o enfrentamento político no campo das idéias, acompanhar e participar a movimentação dos nossos partidos, movimentos e grupos que participamos. Acho que é como se começássemos lá de longe, quando a gente ia de casa em casa divulgando as propostas e buscando aliados. Também penso como fazer, mas certamente é uma construção coletiva. Um abração.

  5. Susana Bornéo Funck

    Clair,
    Adorei teu texto e te pergunto: há algum movimento articulado nesse sentido (contra o golpe branco)? Gostaria muito de participar.
    Abs,
    Susana

    • Querida Susana, estão começando algumas iniciativas nos partidos e nos movimentos sociais. Estou observando mas ainda não vi muitas coisas mais objetivas. Ocorrem alguns chamamentos para reuniões e muita manifestação pela internet. A sensação que tenho é que o pessoal está começando a sair do imobilismo e começando a se encontrar. Há necessidade cada vez maior de atividades presenciais. Penso que seria legal começar pelos nossos locais de trabalho. Mas, qualquer coisa mais concreta que eu souber te informarei. Obrigada pelo apoio ao texto. Um abração.

  6. Nossa, realmente esta uma covardia, hoje mesmo na manicure, enquanto falavamos do governo, os trabalhadores do local estavam totalmente corrompidos pela propaganda enganosa, foi triste, mas gentilmente sobrepus nossos ideais perante os empresarios presentes. Deus abençoe a todos. Saudaçoes farmaceuticas

    • Ôi, Lisiane, obrigada pelo comentário. O que fizeste é exatamente o que precisamos fazer. Enfrentar a discussão, seja em que ambiente for. Não dá para deixar dizerem toda e qualquer coisa, mentira ou não, sem que tenha o contraditório. Não podemos deixar se cristalizar essa sensação de que a direita golpista está cheia de razão. Vamos em frente. Um grande abraço.

  7. margot friedmann zetzsche

    Como sempre, este texto representa bem nosso momento político… Não é por conta da crise do atual governo, com tudo que contém que vamos esvaziar nossas crenças de que os movimentos de esquerda foram indispensáveis para oxigenar o país sob todos os aspectos – políticos, morais, industriais e econômicos. Não teríamos o país que ai esta se tivéssemos mantido a mesma linha de condução e administração do poder desde o fim dos governos militares. Ninguém viu o outro lado da moeda, que poderia ter nos levado ao colapso mais feroz causado pela exploração neoliberall. Os pequenos, porém significativos movimentos que a esquerda brasileira conseguiu fazer, apesar das aberrações das coligações partidárias que a viabilizam, conseguiram diminuir a miséria, a pobreza, a desnutrição infantil e os índices negativos de saúde em geral.

    O fundamentalismo, desde alguns dos movimentos religiosos estadunidenses até o estado de exceção em países islâmicos, é um movimento que cresce em geral no momento histórico atual. Não seria diferente no Brasil. Mas o atual estado de coisas tem sido usado como adubo para ódios religiosos, preconceitos de raça, de gênero, e principalmente de classe social. Basta sair aos aeroportos e estradas para ver que os “pobres” de agora não são mais os pobres de antigamente – andam de avião e de carros novos – em estradas ruins, e aeroportos precários, é verdade, mas estão ai visíveis aos olhos de todos. Não estão mais escondidos sobrevivendo das migalhas do banquete neoliberal. Ninguém mais contrata uma empregada por 400 reais e nem um porteiro por 300. Por este salario indigno, um dos membros do casal vai ficar em casa pra cuidar da casa, das crianças e administrar os tostões da bolsa família.

    Mas é este o raciocínio que move de forma inversa, a direita burra que acha que o fora PT vai resolver o problema de fundo de nosso país: o apego aos privilégios, e o direito “ divino” dos bem nascidos, e a corrupção generalizada em todas as instâncias administrativas. Não há como realizar mudanças econômicas e políticas sem sangrar profundamente TODOS os partidos que estão no poder. E há de se notar que muitos já estão sangrando agora, com as prisões e dossiês que a imprensa bem mostra a cada vez que se liga a tela ou se abre um jornal.

    Mas atenção! Nnão é possível que não haja mais sobrado gente honesta, pensante e disposta a contribuir ao debate de forma madura: em todos os partidos e em todos os lugares há de haver gente que se preste a pensar com calma. Como nas palavras de Mènechon: Aonde estão ( E ESTAVAM) todos estes?

    Não podemos, pessoas pensantes de todas as tendências políticas e ideológicas deixar que o vácuo que sentimos, ante os descalabros de alguns segmentos de governo seja preenchido com fundamentalismo de qualquer espécie, e com a demonização das esquerdas – tão necessárias à saúde política de qualquer regime democrático.

    MARGOT FRIEDMANN ZETZSCHE _ Enfermeira/
    Professora de Saúde Coletiva
    Mestre em Educação

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