NÃO SOMOS OVELHAS…CHEGA DE PASTORES!!!

OVELHAS

Em Sant’Ana do Livramento, cidade da fronteira oeste do Rio Grande do Sul onde nasci, região da campanha, zona de pecuária, estão localizadas imensas estâncias de criação de gado. Estendem-se ao longo das coxilhas verdes e onduladas, poucas árvores, sangas e açudes. Naquela imensidão de paisagem bucólica vivem vacas, bois e ovelhas. A cachorrada corre, late e ajuda a pastorear os bichos.

Os contos e lendas locais, assim como os causos contados em volta do fogo nos galpões, em geral são inspirados nos personagens, tanto animais como humanos, que vivem naquelas paragens.
Há uma expressão popular que é a seguinte: …”ah! o fulano (a) é uma cabeça de ovelha!” Trata-se de algo similar ao “Maria vai com as outras”. A explicação para a “cabeça de ovelha” é que, segundo a tradição, quando o vento bate na orelha da ovelha, ela anda na direção do vento. E todas as outras vão atrás. Esta lembrança me ocorre quando penso no cotidiano de nossas vidas infestadas de carros, propagandas, poluentes e igrejas, igrejas, igrejas, templos, oráculos, cenáculos, tabernáculos, catedrais e toda a parafernália religiosa que toma conta das cidades. Integrantes desse cenário aparecem os pastores. Pastores que pastoreiam ovelhas, ovelhas que são cidadãos e cidadãs. Estas ovelhas são atraídas para as mangueiras onde é feita a tosa , a imolação de sentimentos, a repressão de desejos, a visualização do terror do inferno. As ovelhas saem dos templos tosquiadas com a ilusão de que poderão ser felizes…

Nas histórias bíblicas, ovelha sempre foi sinônimo de animal dócil, pacífico oferecido em sacrifício para Deus, nas festas e rituais. Quase sempre eram as vítimas, tanto nos relatos bíblicos e mitológicos, assim como nas fábulas e histórias infantis. Agnus Dei! Cordeiro de Deus… E assim por diante. Enquanto só “o Senhor é o meu pastor”, ainda era compreensível. No entanto, com a banalização das crenças, com o desencanto do povo com o mundo, com as falsas necessidades criadas pela cultura do consumo, surge, com força avassaladora, uma multiplicidade de arautos da fé e da salvação: os pastores! Mas a pergunta dramática é: – quem nos salva dos pastores?

Até porque, quando nos detemos no conteúdo das fábulas, as ovelhas, carneiros, veados, enfim, os animais frágeis e pastoreáveis sempre sofrem e morrem sozinhos, os tais pastores nunca estão por perto para salvá-los.

Agora que não vivemos mais naquelas épocas pastoris, criou-se uma nova espécie de seres apocalípticos: os pastores deputados e midiáticos.

Há necessidade de entendermos essa nova transfiguração, pois os mesmos que infestam as tribunas e bancadas das casas legislativas e tratam os espaços de cidadania como se fossem suas igrejas e seus comércios específicos são versões repaginadas daqueles que foram chamados de “vendilhões do templo”. No parlamento brasileiro os dízimos se transformam em votos e estes em influente moeda de troca com os governantes.

Parece que a confusão proposital está instalada. Foi gestada e parida uma espécie de nova “arca da aliança”, uma arca profanada, onde as tábuas da lei foram trocadas por um promíscuo receituário de preconceitos, ódio, misoginia e intolerância. Esses decálogos são apresentados na forma de projetos de lei. Proliferam aberrações do tipo “Estatuto do Nascituro”, “Bolsa Estupro”, “Cura Gay”, “Criminalização da Heterofobia”, “CPI do Aborto” entre outras. Uma mistura infectocontagiosa do fisiologismo com o oportunismo eleitoral. Esta poção maléfica grassa e contamina os entes políticos de todos os matizes.

A grande inovação é que as ovelhas oferecidas em sacrifício em geral são as mulheres, os negros, as lésbicas, os gays, os trabalhadores rurais sem terra, os quilombolas ou os indígenas, entre outros. Um admirável mostruário de uma infindável oferta de brindes oriundos das camadas oprimidas da população ou entre aqueles que divergem da ordem heteronormativa, colonial, opressora, misógina, hipócrita e exploradora das classes trabalhadoras. Aqueles seres incômodos que não querem ser ovelhas. Aqueles que querem ventos de todas as direções. Até porque na lógica dominante as ovelhas têm apenas dois destinos: ou viram churrasco ou doadoras de lã.

Analisar as novas coreografias do espetáculo político-partidário brasileiro é algo empolgante e tóxico. A cada dia uma nova modalidade de atrativos místicos é desenhada no universo de nosso Congresso.

Portanto, é preciso transgredir, denunciar, falar, entender as coisas que acontecem e visualizar as novas bestas do apocalipse que, além de fome, peste e guerra, acrescentam preconceito, alienação, comodismo, passividade e violência.

Finalmente, é necessário entender que na relação pastor x ovelha os cidadãos (ãs) são convertidos em gado. Derrubar mangueiras, correr livres em direção às novas utopias eis a tarefa que se impõe!

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Publicado em 18 de novembro de 2013, em Uncategorized. Adicione o link aos favoritos. 8 Comentários.

  1. Poucas palavras e um mundo de reflexões a instigar os nossos recursos mentais. Novamente, você sacode as poeiras dos ombros acomodados de todos nós e pronto, estamos em posição de sentido para as batalhas que pedem companheiras. Então, Clair, vamos atender ao seu chamado.

  2. Parabéns Clair, por abordar esta associação, a meu ver muito indevida, entre “religiosos”e política. Um abraço

  3. solo le pido a dios,
    que el dolor no me sea indiferente
    que la resaca muerte no me encuentre,
    vacia y sola sin haber hecho lo suficiente

  4. Heliete Maria Castilhos Karam

    Clair, como sabes, sou fã dos teus escritos, sempre muito lúcidos. Agradeço por mais esse belo texto. Agora, penso que deverias aproveitar essa verve e abordar o outro lado da moeda: a ideologia biologizante do humano que deslumbra a tanta gente, fazendo da ‘ciência’ [e do dinheiro] um novo deus e isso através de outro tipo de pastores a serviço do Estado-Laboratório a enquadrar neuro-quimicamente as populações (cf. Tibon-Cornillot), etc. etc. Como referem vários pensadores, a ciência está louca porque descarta o sujeito. Esta realidade, em parceria com a que abordas é, sim, preocupante, em especial quando pensamos na futuras gerações e no aqui e agora que semeamos para elas.

  5. Clair, muito pertinente suas colocações neste texto, faz tempo que derrubei as porteiras, tento correr livre, mas ainda nem tanto, ainda no corpo amarras ancestrais da religiosidade cristã das quais tento me libertar. Pensar no futura é mudar o presente, esta mudança eu comecei quando tive meus filhos e agora netos que começam a correr livres. Agradeço teu brilhante pensar e me renovo nestas gotas de sabedoria. Axé

  6. Clair, como sempre, inspirada, trazendo para nós tanto da militância como da academia, essa brilhante reflexão, que na minha opinião deveria ser publicada, socializada, difundida para além desse BLOG! Este texto deveria chegar às mãos dos nosso políticos (gestores) que não conseguem tirar o cisco do olho e ver como estão sendo ludibriados por muitos destes pastores, que são seus próprios colegas de gestão!
    E nós, mulheres, tanto da academia como da militância, o que fazer para transformar as consciências de centenas de mulheres que ainda não acordaram, que não conseguem abrir as porteiras, correr livres (nas palavras da Vera); que não enxergam nestes pastores uma extensão da dominação patriarcal a que fomos submetidas durante séculos!

  7. Caia querida, muito bom tocar nesse assunto. Tenho andado muito assustada com essa proliferação de “igrejas” criadas por oportunistas, que exploram e alienam a povo, e enchem as contas bancárias desses salafrários, e o poder político que vêm assumindo. Recentemente tive uma discussão com um integrante da universal do reino do edir macedo, com uma bíblia embaixo do braço, e eu mostrei qtas. matanças, sacrifícios humanos, destruição estão descritos nelas, que conta “a obra de deus”. E a resposta é sempre – deus escreve certo por linhas tortas, deus sabe o que faz, era a vontade dele para limpar o mundo dos impuros. Ou seja, nós, que não acreditamos em falsos pastores.
    Beijão Luci

  8. Muito bom o artigo ” viram churrasco ou doadoras de lã” é hilário.
    Rí muito, porque sábado agora estava num casamento, tudo perfeito até que o pastor falou para a ovelha: “de hoje em diante serás submissa ao teu marido e a primeira ovelha de seu rebanho”
    . Não pude aguentar. Saiu-me uma expressão vinda do fundo de minha alma de militante feminista : “O QUÊ? ” imediatamente olhei para os lados surpresa com a minha falta de “compostura” , querendo algum apoio e só encontrei indiferença . . .rrrss
    É incrivel que ninguém se manifeste, conteste, nem nos bastidores. As igrejas avançam com essa ideologia onde o homem é o senhor dono da vontade da mulher e todos parecem concordar e se submeter. E olha que os ´presentes pareciam de classe média/media, mas . . .

    Parabens Clair. Nossa luta está começando. Beijos
    Thereza Ferraz

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