“OUTLET” in Terra Brasilis

Oi, pessoal, como podem ver estou postando com mais frequência no meu blog que andava um pouco abandonado. O problema é que as coisas andam tão alucinadas e vertiginosas nos seus cursos que fica difícil acompanhar e opinar sobre elas. No entanto, há tempos, esse jeito neoliberal/colonizado/pós-moderno de falar começou a me incomodar. Pensei sobre o assunto, imaginei sobre ser ou não ser ridículo abordar tal tema, se é uma coisa “politicamente correta” afrontar tal modernidade, até que decidi. Apresento para vocês essas breves considerações e espero que curtam, critiquem ou me convençam que estou delirando…
Clair Castilhos Coelho

 

                                                                                                      Língua
língua-portuguesa-2Gosto de sentir a minha língua roçar a língua de Luís de Camões
Gosto de ser e de estar
(…) “Minha pátria é minha língua”
Fala Mangueira! Fala!
Flor do Lácio Sambódromo Lusamérica latim em pó
O que quer
O que pode esta língua?
(…) A língua é minha pátria
E eu não tenho pátria, tenho mátria
E quero frátria
(Caetano Veloso)

Ao “startar” este “paper” despretensioso sei que o tema é bastante explorado e que existem muitos artigos e comentários sobre o assunto. Não é original, nem inédito, já foi até objeto de muitas músicas do nosso cancioneiro popular. Pode até parecer delírio de uma antiquada nacionalista nascida no século passado, no pós-guerra.
Mas, ultimamente, a invasão alucinada de palavras estrangeiras em nosso vocabulário é irritante. Contaminam a nossa vida porque as palavras são signos ideológicos e à medida que um povo perde a sua língua também perde a sua alma. Não tenho a intenção de buscar a autenticidade linguística de um Policarpo Quaresma, mas, sempre é bom dar um tempo, na colonização. O “sale” do “Brazil” está devastador! Como diz Aldir Blanc e Maurício Tapajós em Querelas do Brasil – “(…) O Brazil não conhece o Brasil /O Brazil nunca foi ao Brasil /O Brazil não merece o Brasil /O Brazil ta matando o Brasil (…)”
Exemplos simples. Visualizemos um corriqueiro planejamento de atividades entre grupos de pessoas, para organizar algum evento ou uma simples reunião de trabalho. No momento de distribuir as tarefas começa a festa: quem faz o “folder”, onde produzir o “banner”, e se houver “workshop” quem providencia o “coffee break”? Vai constar do que? Será interessante que tenha “cupcake”? Ou quem sabe um “brunch”?
Hora da execução: “Release” para imprensa, “briefing” para resumir a pauta e as decisões tomadas… ah! também um “data show” para projetar o “PowerPoint” com o “case” que será discutido.
Finalmente após a realização do trabalho é a vez do indispensável “following-up” para acompanhar os resultados e fazer a “accountability” e ver se tudo deu certo e se terá sequência. No caso de atividades de “advocacy” é saudável ver se resultou num “empowerment”.
Quando as coisas não dão certo é preciso contratar um “coaching”, de preferência com “Master in Business Administration”- MBA e continuar a caminhada na busca de sucesso. Não é permitido, no cotidiano dos “Corporate Center” a presença de pessoas desagradáveis e críticas. Essa gente que se recusa a ser campeã, que não persegue metas surreais e objetivos de alto desempenho. Enfim, esses que preferem ser fracassados felizes, medíocres em paz, sem o ímpeto e sem a adrenalina dos verdadeiros campeões. Esses que nunca serão “Chief Executive Officer” – CEO. Aquelas criaturas exóticas que frequentam o Sistema Único de Saúde, que fazem feira em sacolões, que ao assistir futebol chamam de estádios as arenas da FIFA, não usufruem dos “Medical Center”, “top of line” com magníficos prédios espelhados e aparência de “shopping centers” que nem de longe possuem a forma de prosaicos serviços de saúde , e, pasmem, para complicar, falam aquela língua arcaica trazida de Portugal com traços indígenas e africanos. Para que isso não ocorra na vida corporativa, para que não haja engano a respeito de quem protagonizará as ações é essencial a presença do “headhunter”, o verdadeiro, o implacável caçador de cabeças.
Os profissionais da hora são jovens bem apessoados, com idade em torno de 30 anos, que circulam nervosamente nos aeroportos, trajando ternos bem cortados, com a cintura e os bolsos cheios de artefatos pendurados, tipo IPad, IPhone, Smartphone, laptop, totalmente “pluggados” com a contemporaneidade, com celulares o tempo inteiro nos ouvidos, olhando “check lists” de atividades pendentes e uma inefável “cara de caso urgente” às vezes para resolver a compra de um lote de… grampos de cabelo!
Na real, acho que vou dar um “gap” e “dormir, talvez sonhar”. Aliás, imagino que ao dormir, os colonizados empreendedores de sucesso, aspirantes “ao” CEO, se tornem menos lamentáveis.
Mas, para o necessário “upgrade” é importante saber o que tudo isto significa e o que dizem estas palavras e este modo de vida. Foucault falando sobre o neoliberalismo afirma: (…) o neoliberalismo é uma “prática de governo”, na sociedade contemporânea. O credo neoliberal não pretende suprimir a ação do Estado, mas, sim, “introduzir a regulação do mercado como princípio regulador da sociedade” e mais adiante assegura: “Trata-se de fazer do mercado, da concorrência, e, por consequência da empresa, o que poderíamos chamar de poder enformador da sociedade”.
Na verdade somos aspirantes a uma centenária invenção norte-americana que, após a segunda Guerra Mundial, tornou-se sinônimo de formação de líderes empresariais o MBA! O que na vida real não passa de uma especialização. Após a sagração como MBAs somos caçados por um “headhunter”, selecionados e finalmente adestrados por um “coaching” – termo oriundo da idade média e que é uma gíria que surgiu nas universidades norte-americanas para definir um “tutor particular”. “Coaching” vem da palavra inglesa “coach” e significa treinador. Esse treinador tem o objetivo de encorajar e motivar o seu cliente a atingir um objetivo. O termo “coaching” apareceu pela primeira vez na era medieval, com a figura do cocheiro, o homem que conduzia a carruagem (coche) para algum lado. Os cocheiros também eram especialistas em treinar os cavalos, para que estes puxassem os coches. Trocando em miúdos, será que somos cavalos treinados para puxar o pesado coche das esfaceladas metrópoles imperialistas? É necessário conhecer as palavras, sentir o significado e a finalidade. Mas esta preocupação não existe no ilusório mundo reificado da modernidade global.
Por esta e por outras que o Brasil e seus habitantes correm o risco de ser um “outlet”, uma ponta de estoque, objetos com pequenos defeitos, pasteurizados, anódinos liquidados na grande gôndola do supermercado global, na qual o capitalismo transformou a humanidade. Quem sabe, ao enfrentar a alienação, combater a pretensa “governança” mundial, agir criticamente e raciocinar de forma livre e lúcida consigamos diminuir este imenso desconforto existencial que sufoca os nossos melhores sonhos e sentimentos?
Mas, se pensar for uma carga muito pesada o aconselhável é malhar em um “Fitness Center”, com um dedicado “Personal Training” para uma saudável reabilitação. E, finalmente, como somos resilientes, quem sabe um “Happy Hour” para alcançar um almejado “Happy End”?

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Publicado em 9 de junho de 2013, em Uncategorized. Adicione o link aos favoritos. 10 Comentários.

  1. Heliete Maria Castilhos Karam

    Clair, valeu! Muito obrigada! É tudo o que eu e alguns amigos observamos e me sinto contemplada com esse texto tão preciso. O Ariano Suassuana iria gostar, ele que também tanto critica essa colonização a qual nossa sociedade está se submetendo.

  2. É isto mesmo Clair, concordo com voce. Estas expressões em ingles fico sem entender nada.
    Dai lembro do amigo Aldo Rebelo.

    Beijos
    Raquel

  3. Maria Luísa Pereira de Oliveira

    Curti e muito Clair. Ótima reflexão. Podemos pensar em como o colonialismo se atualiza e se re-edita. Que venham outras de suas considerações. Abraços. Maria Luísa

  4. Olá Clair, muito legal o seu texto. Também me sinto bastante incomodada com todo esse “estrangeirismo” neoliberal! É tão explícito que me enjoa. Talvez por isso ou somado a essa invasão colonial nós os colonizados cada vez mais escrevemos mal a nossa “língua”!

  5. Teresa Kleba Lisboa

    Gostei muito do seu artigo, Clair! Vamos valorizar o que é nosso, a nossa língua está cheia de palavras bem construídas, elucidativas que possibilitam expressar as mesmas expressões “importadas”. Abaixo ao imperialismo e ao colonialismo da língua!
    Um abraço, Teresa

  6. Silvia Czermainski

    Querida Clair!
    Texto como tu: inteligente, divertido, anticapitalista, denunciante, intenso!
    Adorei!!!
    Contribuindo… tem um termo que eu acho inacreditável, pobre e que a gurizada enche a boca pra falar: reunião agora virou… “ROUND!!”.. é mole??? rsrsrs
    Grande abraço!
    Silvia Czermainski

  7. Neusa Freire Dias

    Valeu companheira Clair,
    Fico incomodada com os ” estrangeirismos ” adotados no nosso cotidiano e vejo cada vez mais as pessoas .se sentirem valorizadas usando termos em outra língua.
    O texto é bastante reflexivo.
    Neusa Dias

  8. Olá Clair, recebi teu texto de uma amiga e adorei. Sinto e penso a mesma coisa e concordo contigo que é uma pena não valorizarmos nossa bela língua portuguesa. O pior de tudo é que a maioria das palavras estrangeiras são mal pronunciadas, simplesmente, sem aportuguesamento sequer; dois crimes linguísticos.
    Saudações.
    Eloína Santos

  9. Darly Salazar Pereira

    Excelente texto. Isto tem me irritado profundamente, assino em baixo.
    Darly S. Pereira

  10. Valeu, Clair, treinados para o sucesso deixamos de ter critica… interessante ver como essa geração não se abala por danos aos outros mas se indigna e chora quando um pedestre atravessa a faixa na sua frente, afinal, ELE esta com pressa. Grande abraço

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