TÁ NO “TEMPO DA POLÍTICA”…SEM POLÍTICA?

O Brasil encontra-se no auge do período eleitoral, eleições municipais de 2012. Há um desfile alucinante, nos programas de TV de candidatos a vereadores (as) e prefeitos (as).

O “tempo da política”! Uma das fases mais ricas e instigantes do processo político nos países democráticos. É o momento em que a sociedade escolhe seus novos representantes, tanto para o parlamento como para gerir o aparelho de Estado. É o tempo da discussão, do debate, da análise das propostas, da tomada de posições ideológicas, do julgamento das trajetórias partidárias, pessoais e administrativas, das esperanças e apostas para um futuro desejável.
No entanto, o que ocorre é um vazio melancólico. Uma comercialização da propaganda eleitoral, onde os candidatos são mercadorias, oferecidas e vendidas, a um público consumidor, de preferência pouco exigente. Vereadores comparáveis a sabão em pó, prefeitos a aspiradores de pó ou fogões de cinco bocas. O discurso dominante é uma gincana contábil. As propostas são: vou construir 200 creches, liberaram 147 construções de prédios em Florianópolis, vou passar o tapete preto em 50 Km das ruas da cidade, vou asfaltar todas as ruas, vou contratar duas centenas de médicos e enfermeiras, o candidato X faltou 42 sessões na Assembléia, o outro faltou 33%, vou conseguir 10 bilhões de reais para o município e assim se passam os dias…
Os cidadãos e cidadãs opinam muito pouco, a não ser mediante depoimentos ensaiados na propaganda televisiva e no rádio.
Mas, afinal, por que tudo isso? Essa quase completa aridez ideológica, o predomínio de formulações meramente administrativas, uma pasteurização do pensamento crítico, uma deseducação política sistemática dirigida ao povo, propostas que precisam ser inócuas devido à esquizofrenia das alianças partidárias. Quase impossível distinguir quem é quem. São materialistas com pastores evangélicos, pefelistas com socialistas, neoliberais com trabalhistas, ex-integrantes da ditadura militar com ex-militantes de esquerda, misturas extravagantes a demonstrar a miséria ideológica, ética e conceitual que torna quase todos adeptos de hipocrisia, alienação, paz e amor!!
Como cenário urbano o visual externo parece o da parábola dos “sepulcros caiados”. São tantas as proibições para as propagandas de rua, nada pode, tudo polui, tudo suja, tudo empesta a cidade. Não mais as alegres e irreverentes pichações, colagem de cartazes, pinturas nos muros e tapumes, bandeirolas nos postes, panfletagens, militantes ostentando camisetas e símbolos dos seus partidos e candidatos. A elite dominante, a burguesia e seus arautos sorriem satisfeitos com a agonia da irreverência, das atitudes libertárias, da rebeldia, do sabor da dissidência e da ira sagrada dos oprimidos.
A judicialização da campanha, a penalização das manifestações populares e partidárias faz com que a cidade aparentemente morta e limpa, apodreça visceralmente de tédio e cansaço da mesmice. Nada de ideologia, nada de confronto, nada de controvérsia. São garantidas todas as condições para o continuísmo e a submissão à realidade opressiva da exploração capitalista.
A eleição virou o espaço da contabilidade, da assepsia, da morte da política. Só que, anestesiar o pensamento político é uma decisão política. Vale pensar sobre essa forma de alienação.
Será que morreu o tempo, em que o grande Ho Chi Min dizia que “a revolução é a poesia da História”? E que eu, ousadamente, plagio, dizendo que a eleição é a poesia da democracia?
Não será esta, a hora de começar a reação? De iniciar a crítica ao capitalismo neoliberal e seus efeitos? Não seremos humanos o suficiente para preservar o instinto vital? Que é alimentado pela paixão, pela consciência de si, e em si, pela presença do outro, pelo prazer de criar, procriar, viver e contestar.

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Publicado em 14 de setembro de 2012, em Uncategorized. Adicione o link aos favoritos. 6 Comentários.

  1. Sábia reflexão, prof ª Clair!!

  2. Cara Clair. Sábias palavras de quem viveu e vive intensamente a militância política com coerência e persistência. Abraços. Valdir Ferreira.

  3. Iara Branco d'Avila

    Querida e respeitada companheira Clair. TUDO DITO e, como sempre, na melhor forma de dizê-lo. Assino junto! bjs. saudades. Iara Branco d’Avila-Conselho da Mulher e PT de Itapema

  4. Ótimo, Clair!..já estou publicando…

  5. Caia, “velha de guerra”! Você ousa pedir uma opinião e nós, pobres mortais,só podemos dizer que você revelou o essencial. Disse o que tinha de ser dito. Depois, resta a nostalgia dos tempos da euforia democrática,dos partidos com cara e dos políticos com vergonha na cara. Hoje, uma centena de anencéfalos desfilam a sua mesmice e a juventude morre de tédio com a política. É uma orquestração articulada e bem pensada para facilitar a demissão dos poetas que querem cantar a vida e louvar as lutas.
    Abraço de irmã…

  6. Camarada Clair,percebo alegremente que segue sua trajetória conclamando a sociedade ao exercício cidadã e democrático, especialmente quanto a tomar para si a responsabilidade no que diz respeito a opinar,apoiar,e cobrar execução de propostas reais e factíveis para cada um(a) em seu(s) “locus”.A meu ver,trata-se de uma chamada à ação/reflexão prudente.Uma importante e oportuna contribuição.
    Abraços afetuosos,respeitosos e solidários
    Fátima Almeida(UBM e RFS-BA)

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